Apresentação

Viver do jeito que vivemos, enredados em rotinas tristes e vazias. Conciliar transviados que jamais questionaram e sonharam som um estilo de vida diferente. Dar passos rumo a decisões interrompidas. As primeiras frases desse romance me reconduziram às viagens de Huxley, aos transbordamentos do LSD, quando era moda tomar ácidos. Esse mundo que está aí vale a pena? Continuar em nossos trabalhos, o que significa senão sentir uma estranha repulsa que nos atordoa quando nos aproximamos da empresa em que trabalhamos, em que nos afundamos pela vida. Nesse mundo, nessa empresa, nesse trabalho somos tomados por um torpor que parece crescer pelas de mármore. Fernando, o personagem, se vê tomado pela mesma angústia indefinível que envolveu o personagem de A Náusea, o romance de Sartre. Neste livro de Scalzilli, o que há, acima de tudo, são sensações de tempos gastos em desperdícios de energia e convicções. Este é o mundo de agora, a sociedade globalizada, a ausência de sentido, é o vácuo. Aqui está algo do Henry Miller de Trópico de Câncer, uma fração de Viagem ao Fundo da Noite, de Céline, resquícios de Panamérica, de José Agripino, o desespero de Howl, de Ginsberg, a revolta de Paranóia, de Roberto Piva. Há em Guilherme Scalzilli a alma de um novo angry young man (alguém ainda se lembra do movimento que agitou a Inglaterra nos anos 60?), ele se mostra outsider do século 21. Ler este romance nos remeteu a John Osborne (que deveria ser retomado): “Temos estado tão preocupados com a morte e o medo que nem sequer tentamos imaginar o que poderia ser a vida sem a pressão do sofrimento. E os artistas estão tão preocupados com o pesadelo que nem lhes restou tempo para corrigir as velhas utopias”. Não é o caso de Scalzilli, e este romance é parte de sua batalha para corrigir utopias, para “desmontar corações de pedra em busca de absolvição, revelar hedonistas militantes da capacidade do prazer, denunciar vampiros exaustos”. Você será tomado pelo texto, e vai ter de voltar, e sentirá que perdeu alguma coisa e lerá outra vez. Tenha coragem!

Ignácio de Loyola Brandão

Livros
© 2008 Guilherme Scalzilli