Monogamia

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita
(Dante Alighieri, Inferno)

Torrão de corretos meneios, ares convexos, cava conduta,
ele suma o caramelo insosso que o irmana a chãos e colinas.
Contido por veios profundos, derrama-se em porosa lisura,
fluindo ao descanso viscoso; porém, decomposto ao meio
(ou um tanto antes, como anseia), esperta livre de arrimos.
Submerso no assomo do flerte, engulha turbas de estios,
delira pesadelos forros – e mais anela as delícias do abismo
à medida que desliza nos sustos prazerosos da malícia.
Não conhece, entretanto, as perfídias viris do galanteio,
a náusea das carícias iminentes, o apuro reticente da mentira;
sonhara-os pasmo, em segredo, e o mero vir-a-ser fora enleio,
durou centúrias de transeada nostalgia. Afeito à armadilha,
no âmago morno do encanto, um salobro mortiço o devora:
soçobra em promessas ignotas, vácuos de vivências inauditas,
prestes a impregná-lo, qual tela crua, a nódoas de tintas antigas.
Mesura quão duras e hirsutas as tramas do seu tecido intacto,
quão tesas as suturas, a apupos cosidas, que lhe selam os furos
da epiderme árida. Lembra as masmorras dos zelos sonâmbulos,
das angústias tolas, dos arroubos escravos. Roto de assaltos,
amálgama ambíguo, denso de lapsos, engasga os desígnios
que o moldaram dado ao fracasso, os muros de afagos amigos,
guardando seus humores gratuitos, e as puas do gênio relapso
que o talharam cínico, raso profeta dos planos baldados.
Recua, no instinto da luta, ladeando precipícios de estigmas.
Esquece que é grânulo tosco, mísera poeira verossímil,
e tenta assimilar-se ao lodo, ao ranço que o tinha compacto.
Quisera não ter cobiçado. Caído acima, pensa subir da asfixia,
mas a tona revira-se em leito e ao fundo oscila o céu luzidio.
Nada em vazios natimortos, numa azia de eternos prelúdios,
no orgulho contrito dos triunfos súbitos e lauréis imerecidos.
Falto da calma enxovia (sina aceita, mais que convicta,
paga sem pena, em revés de alento) e ébrio de quimeras,
supõe que só a cela o fez cárcere, que apenas trevas externas
ninaram-lhe o sono longevo e secaram suas febres honestas.
Parvo de incertezas, timorato e obtuso, açula o reposto apetite,
instiga a volúpia cortês, os ímpetos novos, a audácia liberta:
sim, purgou a velha pureza, está isento dos lustros decentes,
limpo da índole de argila. Mas ainda veste o doméstico cimento,
crivado de pactos benignos, que é fardo, sepulcro e esteio.
Feito, por troça inclemente da sorte, monólito que outra deseja,
fadado ao limo do asseio, ao exílio do silêncio, à perpétrea vigília,
explode num frêmito ocluso: íntegro, destrói-se para esquecê-la.

Inéditos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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